sábado, 8 de janeiro de 2011

Último post

Estou encerrando com este título, em referência ao primeiro post, uma série de 255 posts que foram publicados neste blog. Agradeço a todos os comentários e e-mails que recebi dos leitores e a motivação que me fizeram publicar interessantes matérias do universo de inteligência artifical nesses 4 anos do blog.

Lembro que não me ausento da blogosfera, mas me concentro agora para postar matérias interessantes no blog Natural Language World (em inglês), que mantenho sobre temas mais relacionados a minha área de pesquisa. Não deixem de seguir:

domingo, 6 de junho de 2010

“Os computadores do futuro serão inspirados na dinâmica do cérebro”, diz Nicolelis

Um post um pouco antigo, mas ainda bem relevante. Vale a pena conferir.

O fim da inteligência artificial como a conhecemos, uma computação cada vez mais inspirada nos avanços da neurociência e o começo da popularização da fusão entre homens e máquinas, que prometedevolver movimentos aos quadriplégicos. Essas são algumas das ideias do neurocientista brasileiroMiguel Nicolelis, chefe do setor de neurociência da Universidade de Duke, criador do ‘Campus do Cérebro’ de Natal e um dos maiores especialistas na mente humana no mundo. Confira a entrevista completa:

A inteligência artificial morreu?
Sim. Ela não abarca a complexidade da cognição humana. Os pesquisadores acharam que ela poderia reduzir tudo em uma série de regras de produção, em uma automação. Quando eu era aluno de pós-graduação, o pessoal achava que podia resumir todos os diagnósticos dos médicos em uma série de regras e padrões. Vendiam a ideia de que, em pouquíssimo tempo, seríamos capazes de simular um ser humano por completo. Poderíamos dialogar com um computador e achar que estávamos falando com uma pessoa comum, já que o robô poderia ter todas aquelas características. Ninguém mais dá atenção para essas idéias. Eu até pensei em pesquisar a inteligência artificial, mas, logo que cheguei nos EUA, vi que a coisa já estava desmoronando. Foi uma moda.
O que computador pode aprender com o cérebro?
Ultimamente, estamos investigando o sistema nervoso como uma forma distribuída, e com isso estamos aprendendo o que acontece quando colocamos milhões ou bilhões de elementos trabalhando juntos. É uma ciência completamente nova. Os computadores têm muito a aprender com isso. Acho que daqui pra frente vai haver um novo ramo da ciência da computação que vai se basear nos mecanismos do cérebro. A intenção é fazer com que os computadores façam justamente o que a mente faz: generalizar e entender o contexto. Eu estou terminando um livro que fala da mente como filtro, como simuladora da realidade. Não existem computadores que pensem dessa maneira, que tenham uma visão crítica e ativa dos fatos. Acho que é nesse sentido que eles têm que evoluir: seguindo os passos do cérebro.
O homem vai se adaptar facilmente à interface cérebro-máquina?
Sim. O exemplo que eu dou é o do tenista com a raquete. Com o uso freqüente, o cérebro acaba assimilando aquela ferramenta como uma parte do corpo, como uma extensão. Com a interface cérebro-máquina, isso já está ocorrendo. Alguns experimentos nossos dizem que o corpo pode se acostumar de forma mais rápida do que nesse exemplo que eu dou, já que a ligação entre a mente e o robô é direta, não passa por intermediários.
Já faz quase 10 anos que a sua equipe conseguiu conectar o cérebro de um macaco a um computador e fazer com que o primeiro controlasse o segundo, apenas com pensamentos. Quanto falta para que esse tipo de pesquisa chegue aos humanos? Quando isso será parte do nosso cotidiano?
Já faz. Nós publicamos um trabalho recentemente mostrando a devolução do sinal de um computador diretamente para o cérebro humano. Isso mostra que essa assimilação é muito rápida, que a mente aprende rapidamente a dar um significado para esses sinais que, de início, não significam nada. Além disso, estamos começando a dar forma ao projeto Walk Again, que foca nessa interação, mas com um aspecto mais clínico. Por isso, em vez de chips, estou focando minhas pesquisas em processos não-invasivos.
Como funciona, exatamente, esse chip cerebral que foi implantado em macacos e fez com que um deles, da Califórnia, pudesse controlar um robô no Japão, apenas com as freqüências cerebrais?
O chip é um sistema de condicionamento dos sinais neurais, que amplifica, filtra e redireciona essas freqüências. Com o uso de um dispositivo wireless, você pode transmitir esses sinais para outro dispositivo, outro corpo. Se fizermos com que um chip capte as frequências do cérebro e as transmita para um membro artificial rapidamente, o cérebro acaba reconhecendo aquela prótese como parte do corpo. A ideia é essa. Para os humanos, estamos desenvolvendo uma tecnologia em que esses sinais sejam captados e transmitidos sem a necessidade de fios, e que fique tudo dentro do crânio. É como um marca-passo cardíaco, que fica preso apenas no tecido (e não acoplado no órgão em si).
A sua ideia é que essa interface cérebro-máquina poderia devolver os movimentos aos quadriplégicos, criando uma espécie de exoesqueleto controlado pela mente. Você pode me explicar isso melhor e falar em que pé está o desenvolvimento dessa estrutura?
Já começamos a desenvolver esse exoesqueleto, para o projeto Walk Again, para o ano que vem. Nós estamos com colaboradores em diversas universidades e já estamos começando o processo de construção dessa estrutura, que poderia ser ligada ao corpo humano e controlada pelo cérebro. Ele é uma espécie de ‘veste robótica’ que passa pelo corpo inteiro e que tem um controle híbrido, em parte por sinais cerebrais, em parte por alguns mecanismos de reflexos robóticos.
Você disse uma vez que, em longo prazo, esses estímulos poderiam passar da mente para o corpo sem a necessidade desse aparato robótico. Como isso funcionaria?
Em longo prazo, sim. Evidentemente, o ideal seria que devolvêssemos esses sinais do cérebro para o corpo. Mas é bem complicado coordenar toda a estrutura para dar essa sustentação, conseguir controlar o balanço, a locomoção, os braços, as mãos. Estamos falando de um número muito grande de variáveis. É muito difícil controlar o espalhamento do sinal elétrico que vai para os nervos e os músculos. Por isso essa idéia do exoesqueleto, semelhante ao do besouro e que ‘carregaria’ o corpo humano, é a mais factível para nós hoje.
O que você acha dessas tentativas, como a da IBM com o projeto Blue Gene, de criar computadores que imitam o cérebro humano? Eles dizem que já conseguiram sintetizar toda aatividade cerebral de um gato, mas que ainda estão em 1% do cérebro humano. Será que já é possível sintetizar algo que nós não conhecemos inteiramente?
Estamos trazendo um supercomputador Blue Gene, o mesmo usado nesse projeto, para o Brasil. Só que, infelizmente, ele está sendo usado nos Estados Unidos em um projeto no qual eu não acredito. Acho que o pessoal da IBM perdeu a razão. Isso virou muito mais uma propaganda da marca, uma ação do marketing, do que algo sério. Ninguém sabe se você pode reduzir a atividade cerebral a um algoritmo para computadores. O pessoal do laboratório da IBM se baseia em um diagrama dos anos 80 que nem é mais aceito pelos neurocientistas como correto. Usam a neurociência do século 20, ultrapassada. Conhecemos muito pouco dos princípios que comandam a dinâmica do cérebro e, antes de conhecermos, é impossível montar algo como o que eles propõem.
O cientista Ray Kurzweil afirma que, em 35 anos, já poderemos nos conectar à internet sem a necessidade de um dispositivo externo e que teremos acesso ao cérebro uns dos outros, online. O que você acha disso? Será que é possível algo assim em tão pouco tempo (ou algum dia)?
Factível do ponto de vista teórico, até que é. O problema é que nós não temos, hoje, um método para retirar os sinais cerebrais de uma forma não-invasiva, como um gesso consegue reproduzir o formato do corpo humano. No caso dos macacos, nós temos que implantar eletrodos no cérebro. No entanto, já estamos começando a fazer alguns experimentos com animais que vão ser interessantes para essa linha de pensamento do Kurzweil. Na hora que concluirmos, eles vão permitir que essa especulação tenha um pouco mais de base. No entanto, isso ainda não é possível de ser realizado de uma maneira não-invasiva, o que vai demorar bastante.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Robô conduz casamento no Japão

O robô I-Fairy conduz seu primeiro matrimônio no Japão, unindo Tomohiro Shibata e Satoko Inoue em um restaurante em Tóquio. Veja o vídeo abaixo:





terça-feira, 18 de maio de 2010

A Inteligência Artificial das Leis


A ambição do legislador, sem dúvida alguma, sempre foi muito maior que seu talento. Exemplo disso foi justamente a promulgação da lei nº 11.419/06 que dispõe sobre a informatização do processo judicial onde foram inseridos diversos dispositivos que normatizam a aplicação da informática na rotina jurídica de todos os lidadores do direito sem observância do devido impacto que este ato poderia causar no jurisdicionado nos próximos anos.

O que mais nos chamou atenção, e que acreditamos será amplamente discutido este ano, despertando assim a realização deste artigo foi justamente o parágrafo-único do artigo 14 da mencionada lei que assim dispõe:

Parágrafo único. Os sistemas devem buscar identificar os casos de ocorrência de prevenção, litispendência e coisa julgada.

A lei inovou, e muito. Ao inserir mencionado dispositivo registra o início legislativo do computador julgador, aquele que presentemente, irá substituir muitas atividades desenvolvidas pelo juiz que envolvam a arte de julgar. Primeiro em questões mais simples, depois em questões mais complexas.

Muitos, com certeza, não acreditarão em nossas previsões, visto que é muito cedo para falar em inteligência artificial aplicada em julgamentos, porém se olharmos detidamente ao dispositivo verificaremos que o caminho será este.

Mas o que é Inteligência Artificial da Lei?

Primeiramente, a ciência da computação tenta explicar a inteligência artificial como espécie de procedimento que visa substituir a capacidade humana de pensar pela do computador fazendo com que a maquina raciocine e resolva problemas de maneira inteligente a semelhança do desenvolvido pelo cérebro humano.

Claro que o legislador ao inserir o parágrafo-único do artigo 14 não vislumbrou esta possibilidade porém inseriu exatamente a inteligência artificial na lei de forma nunca vista em nenhuma das legislações alienígenas que tive acesso ao longo dos anos que temos estudado a respeito do impacto da informática no direito.

O artigo comentado permite que o sistema computacional poderá e deverá identificar a prevenção, litispendência e coisa julgada, ou seja, três ocorrências processuais elencadas no Código de Processo Civil sendo que a primeira redefine a distribuição do processo e as outras duas levam a extinção do processo sem julgamento do mérito nos termos do artigo 267 do mesmo diploma legal.

Trocando em miúdos, alegações em matéria de defesa que antes deveriam ser analisadas pelo juiz, hoje poderão ser feitas automaticamente pelo computador que tem a legitimidade legal de julgar o destino dos processos que são ajuizados nos Tribunais onde forem identificadas a figuras da prevenção, litispendência e coisa julgada.

Em sendo assim, se o Poder Judiciário, se adequar e implementar este dispositivo que esta vigente, poderá substituir alguns atos decisórios de seus membros por sistemas operacionais inteligentes que identifiquem causas que levam a extinção do processo.

Acreditamos com isso que a inteligência artificial inserida nas leis deverá começar a fazer parte de nosso cotidiano a partir de 2010 pois que as maquinas inteligentes sempre permearam o imaginário da humanidade tendo sido desenvolvida de uma forma mais intensiva após a Segunda Guerra Mundial e agora sendo aplicada no mundo jurídico porém com o receio de que estariamos contruindo uma espécie de Frankenstein jurídico, figura mistica que provoca no ser humano sentimento ambíguo de fascínio e medo, mas que precisa ser invocado em busca de um processo mais rápido e adequado a grande massificação dos conflitos judiciais.

Fonte: Universo Jurídico 

sábado, 15 de maio de 2010

Ciência do século 21 exige realidade virtual e inteligência artificial


Laboratórios virtuais
Um matemático resolve equações mergulhado em uma piscina virtual de números e gráficos, na qual ele pode andar e observar os resultados que são construídos à sua volta.
Um químico testa novas interações moleculares movendo manualmente átomos do tamanho de bolas de tênis, que ficam ao seu redor e reproduzem em três dimensões as substâncias formadas.
Esses exemplos futuristas são a solução imaginada por George Djorgovski, professor de astronomia do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), dos Estados Unidos, para que pesquisadores consigam lidar com os dados cada vez mais complexos que a ciência vem produzindo em quantidade gigantesca.
Limite da capacidade humana
Durante o Faculty Summit 2010América Latina, evento promovido pela FAPESP e pela Microsoft Research, que se encerra hoje (14/05), Djorgovski explicou que a quantidade e a complexidade dos dados científicos ultrapassou os limites da capacidade humana para entendê-los e até mesmo para observá-los.
"É preciso admitir que a maior parte dos dados levantados hoje pela ciência jamais serão vistos por olhos humanos. É simplesmente impossível," disse Djorgovski.
O pesquisador usou como exemplos trabalhos de sua própria área de atuação, a astronomia. Telescópios monitorados por sistemas automáticos registram diariamente enormes quantidades de dados que não poderiam ser totalmente analisados nem se toda a população da Terra fosse formada por astrônomos, de acordo com Djorgovski.
Revolução da informação
O mesmo acontece com outras áreas da ciência que trabalham com grandes quantidades de informações, como é o caso dos estudos sobre a biodiversidade e a climatologia. Além de enorme, esse banco de dados está dobrando de tamanho a cada ano e meio.
"A tecnologia da informação é uma enorme revolução que ainda está em andamento. Ela é muito maior que a Revolução Industrial e só é comparável à imprensa de Gutemberg. Essa revolução tem mudado até os paradigmas científicos vigentes", declarou o pesquisador.
Armas de instrução de massa
Ele explica que as ferramentas, os dados e até os métodos utilizados pela ciência migraram para o mundo virtual e agora só podem ser trabalhados nele.
"Com isso, a web tem potencial para transformar todos os níveis da educação. É uma verdadeira arma de instrução em massa", ressaltou fazendo um trocadilho com o termo militar.
"Ferramentas de pesquisa de última geração podem ser utilizadas por qualquer pessoa do mundo com acesso banda larga à internet", afirmou Djorgovski. Como exemplo, o pesquisador falou que países que não possuem telescópios de grande porte podem analisar e ainda fazer descobertas com imagens feitas pelos melhores e mais potentes equipamentos disponíveis no mundo.
Em busca de sentido
No entanto, trabalhar a educação também envolve o processamento de grande quantidade de informações. Essa montanha de dados a ser explorada levou o pesquisador a questionar a utilidade de uma informação que não pode ser analisada.
Nesse sentido, Djorgovski considera tão importante quanto a coleta de dados, os processos subsequentes que vão selecionar o que for considerado relevante e lhes dar sentido.
São os trabalhos de armazenamento, mineração e interpretação de dados, etapas que também estão ficando cada vez mais a cargo das máquinas.
Além da quantidade, também a complexidade das informações está ultrapassando a capacidade humana de entendimento. "Podemos imaginar um modelo de uma, duas ou três dimensões. Mas um universo formado por 100 dimensões é impossível. Você poderá entender matematicamente a sua formação, mas jamais conseguirá imaginá-lo", desafiou o astrônomo.
Realidade virtual a serviço da ciência
Mesmo assim, ele acredita que ainda há espaço para que raciocínio humano amplie sua capacidade, contanto que receba uma ajuda externa: a da realidade virtual. "A tecnologia desenvolvida para os jogos eletrônicos poderá ajudar o pesquisadores a ter maior compreensão de seu objeto de pesquisa, ao proporcionar uma visualização que o envolve completamente", afirmou ilustrando com os exemplos do matemático e do químico, citados acima.
Para Djorgovski, um dos grandes problemas da ciência atual consiste em lidar com uma complexidade crescente de informações. Como solução, o pesquisador aposta no desenvolvimento de novos sistemas de inteligência artificial.
"As novas gerações de inteligência artificial estão evoluindo de maneira mais madura. Elas não emulam a inteligência humana, como faziam as primeiras versões. Com isso conseguem trabalhar dados mais complexos", disse.
A chave para essas soluções, segundo o astrônomo, é a ciência da computação. "Ela representa para o século 21 o que a matemática foi para as ciências dos séculos 17, 18 e 19", disse afirmando que a disciplina é ao mesmo tempo a "cola" e o "lubrificante" das ciências atuais.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Do you speak Google?



A tradução quase instantânea de textos para 52 línguas é apenas
o primeiro passo rumo a um comunicador universal em que o idioma
deixa de ser barreira e passa a ser o portal do grande encontro das culturas.


As diferenças de idioma são um divisor da humanidade. Há dois caminhos para contornar essa barreira. Num deles, busca-se um retorno à linguagem única que, segundo a Bíblia, existia antes da Torre de Babel. Ao longo da história, algumas línguas de fato procuraram desempenhar esse papel. Por exemplo, o latim, na Antiguidade, ou o inglês, nos dias de hoje. Línguas artificiais como o esperanto, criado no século XIX pelo polonês L.L. Zamenhof, também se candidataram a realizar essa tarefa. O outro caminho é o da tradução universal. Em princípio, seria coisa de ficção científica. O mais insólito modelo de tradutor universal aparece no livro O Guia do Mochileiro das Galáxias, dos anos 70: um peixinho é introduzido no ouvido do protagonista e verte frases alienígenas para o inglês. Na série Jornada nas Estrelas, a tecnologia entra em cena e um dispositivo permite a conversa não somente entre "terráqueos", mas entre habitantes de diferentes planetas. Pois bem: como acontece com frequência, a ficção científica não estava lidando com o impossível, mas apenas antecipando o futuro. A tecnologia já está avançada na criação de um tradutor universal. O sistema mais eficiente opera nos computadores do Google, o gigante da internet. Hoje, ele permite a tradução instantânea de textos escritos em 52 idiomas. Para o leitor, é como colocar-se diante de uma biblioteca infinita e descobrir que todas as publicações estão em português. Estima-se que em dez anos já sejam 250 as línguas contempladas. E, nesse ponto, a inclusão de aplicativos de tradução simultânea em computadores e telefones celulares permitirá que bilhões de pessoas se entendam – sem jamais ter de abandonar a própria língua.

Por trás do Google Tradutor está o conhecimento acumulado em inteligência artificial (I.A.), ramo da computação que se dedica ao desenvolvimento de modelos e programas que produzem nas máquinas um comportamento "inteligente". Nascida nos anos 40, a área produziu experimentos famosos como o robô Eliza, software que simulava diálogos reais na década de 60, e o supercomputador Deep Blue, da IBM, que em 1997 derrotou o campeão russo Garry Kasparov em uma partida de xadrez. O "cérebro" da máquina podia analisar cerca de 200.milhões de jogadas por segundo na busca do xeque-mate. O primeiro estágio da tradução universal – a de textos – já atingiu na internet um nível que linguistas e especialistas em inteligência artificial classificam como avançado. Isso quer dizer que, embora os erros de tradução da ferramenta sejam perceptíveis, os textos que ela apresenta permitem a compreensão do assunto de que eles tratam.

O funcionamento do tradutor do Google remete à Pedra de Roseta, o bloco de granito de 1,20 metro de altura que foi encontrado pelo exército de Napoleão, no século XVIII, e serviu de chave para a decifração dos hieróglifos egípcios. A Pedra traz inscrições de um mesmo texto na antiga língua do Egito e em grego. No século XIX, coube aos estudiosos Thomas Young e Jean-François Champollion relacionar os termos dos dois idiomas para desvendar a língua dos faraós. De forma análoga, os computadores do Google trabalham com pares de textos em línguas diferentes e calculam a probabilidade de palavras de uma delas corresponderem a termos da outra (confira o funcionamento). Com base nesses cálculos, o sistema é capaz de, em menos de um segundo, montar textos em 52 línguas, cada vez que um usuário o requisita.

O tradutor do Google está à frente dos rivais. Em pesquisas patrocinadas pelo governo americano, ele supera com frequência ferramentas de outras empresas e universidades. "Ele também é reconhecido como o melhor entre os sistemas comerciais", diz David Yarowsky, professor de ciência da computação da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Isso significa sobrepujar os rivais Bing Translator, da Microsoft, e Babel Fish, do Yahoo!. "Hoje, a potência da ferramenta está relacionada ao tamanho de seu banco de dados. E também ao uso de supercomputadores, com sua imensa capacidade de processar informações", explica Helena Caseli, pesquisadora do Laboratório de Linguística Computacional da Universidade Federal de São Carlos. 



Se são esses os fatores determinantes, é certo que o tradutor vai evoluir. O aumento na capacidade de processar informações dos supercomputadores é garantido pela Lei de Moore – que postula que a capacidade dos chips dobra a cada 24 meses. O banco de dados do Google também cresce continuamente. Ele começou a ser formado em 2006, com textos oficiais da ONU vertidos para seis idiomas. Em seguida, a empresa recorreu a documentos bilíngues de arquivos públicos. Finalmente, mergulhou na internet. Hoje, seus próprios usuários ajudam a ampliar o banco de dados sugerindo traduções alternativas àquelas que lhes são apresentadas. "Há, no entanto, certo limite para essa abordagem", diz Miles Osborne, pesquisador da Universidade de Edimburgo, na Escócia, que trabalhou no projeto do Google. É por isso que vem sendo estudada a inclusão de regras gramaticais no programa: além dos algoritmos, ele usaria essas regras para compor textos mais fluentes. Hoje, as traduções invariavelmente contêm tropeços de gramática. Assim mesmo, quem se detém em uma página estrangeira, esteja ela escrita em mandarim, africânder, vietnamita, japonês ou hindi, já sabe ao menos sobre o que se fala ali. "Há cinco anos, isso era impossível. Daqui a cinco anos, teremos mais fluência", afirma David Yarowsky.

À medida que os tradutores avançarem, seus impactos deverão se espalhar pelas mais variadas áreas. No campo acadêmico, por exemplo, o avanço será dramático. "Em algumas áreas, como ciência e tecnologia, as versões automáticas poderão ser até melhores do que as feitas por humanos, pois, para nós, é muito difícil guardar detalhes de temas específicos", diz Yarowsky. Considere-se que atualmente, nos campos de ciências, tecnologia, finanças e administração, 90% do conteúdo de alta qualidade está em inglês, e a importância dos tradutores automáticos para milhões de estudantes e profissionais ao redor do mundo se torna clara. Yarowsky também aponta frutos na economia: "Será mais fácil vender produtos e serviços ao exterior, com a eliminação de custos com tradução de manuais técnicos, material promocional e e-mails". Atualmente, turistas já se beneficiam da tecnologia na hora de escolher destinos de viagem sem levar em conta a língua local, uma vez que ferramentas como a do Google estão disponíveis em celulares. Há outros dispositivos portáteis que fazem a conversão voz-texto ou texto-voz. Soldados americanos enviados ao Afeganistão já testaram tal aparelho, que dispara mensagens sonoras escolhidas pelos militares na língua local. "É a chance de pessoas de todas as partes do mundo saberem o que as demais pensam. Assim, suas diferenças podem ser minimizadas", diz Yarowsky. "Eu não sei o que um garoto de Bagdá pensa sobre os Estados Unidos, mas gostaria de saber." O Google já colocou seu arsenal também à disposição de outras ferramentas. Além de verter páginas da web, seu know-how na área traduz documentos apresentados por usuários, chats de texto via Google Talk e até converte legendas de vídeos no YouTube. Para conectar línguas e mentes via celular, precisará agregar ao sistema o reconhecimento de voz, desenvolvido por várias empresas ao redor do mundo. "A tradução voz a voz é incrível, e nós adoraríamos realizá-la", reconhece Nate Tyler, relações-públicas do Google internacional. É mais do que isso. E, embora a empresa tente despistar, o mercado espera dela a ferramenta para a próxima década.

Laura Guzman
A americana de 20 anos está há quatro meses em São Paulo, onde realiza um intercâmbio universitário. Ela recorre ao tradutor automático para dirimir dúvidas na hora de escrever e ler artigos extensos em português
"Eu me sinto segura para usar o idioma, mas vez ou outra as dúvidas aparecem"


A linguagem cotidiana já começa a ser desbravada pelos tradutores automáticos. A frase "Cê vai lá né?", por exemplo, recebe uma tradução bastante adequada no Google Tradutor: "You going there right?". A própria empresa reconhece, contudo, que sua máquina tem um limite claro: a literatura, sobretudo aquela que subverte a gramática e abusa da ironia, fazendo com que uma mesma palavra possa ter vários significados. "Se você tentar traduzir poesia pelo sistema, vai receber um novo tipo de poesia", brincou, durante uma apresentação, o pai da ferramenta do Google, o alemão Franz Josef Och. Mas isso não é demérito nenhum. Há uma infinidade de estudos literários que falam da "impossibilidade da tradução" – ou que, ao menos, lembram o velho adágio "Traduttore, traditore" ("Tradutor, traidor"). "Não existe efetivamente tradução perfeita entre línguas. Cada uma delas tem estrutura e recursos idiomáticos próprios, intraduzíveis. Você pode convertê-los em termos semânticos, mas não analíticos", diz Jacó Guinzburg, tradutor de francês, inglês, alemão, iídiche e hebraico. "Mas é claro que existem alguns trabalhos excelentes. É o caso da versão de As Minas do Rei Salomão feita por Eça de Queiroz: em inglês, é uma obra de segunda, mas se tornou primorosa em português."

Com o avanço dos sistemas de tradução de línguas por computador, a exigência de aprender um idioma estrangeiro poderá ser abalada. Estudo da empresa de RH Catho Online mostra que o salário médio do brasileiro que domina o inglês e o espanhol é em média 125% superior ao de trabalhadores que não falam esses idiomas. Mas, se a tecnologia evoluir como se espera, a questão terá de ser revista: valerá a pena investir mais de 50 000 reais, custo de um curso completo de inglês de primeiro nível, se em tese for possível contar com as máquinas? "Quando têm a oportunidade de escolha, as pessoas preferem se expressar no idioma materno", diz o linguista britânico David Crystal, estudioso das relações entre língua e internet. "A eficiência dos sistemas de tradução poderá provocar certo desinteresse pelo aprendizado de idiomas estrangeiros." Mas seria um erro abandonar de vez o hábito de aprender línguas. O italiano Luciano Floridi, filósofo da informação, lembra que conhecer um idioma é uma experiência insubstituível, um mergulho em outra cultura. "Há palavras intraduzíveis: se você quer falar sobre saudade, tem de usar o português", exemplifica. Isso, contudo, não demove o filósofo da posição de entusiasta da tradução digital, que para ele ocorrerá em um regime de perdas e ganhos. "Imagine que eu nunca tenha ido ao Brasil e certo dia vá a um restaurante típico em Londres: a receita é brasileira, mas a linguiça é inglesa. Ou seja, não é o mesmo que ir ao Brasil, mas é melhor do que nada."

Felipe Carvalho Zulato
Navegar pelas redes sociais é tarefa do relações-públicas de 23 anos, que vive em Belo Horizonte. Antes de descobrir o tradutor, conferir as páginas de sites japoneses era frustrante

"As traduções ainda pecam na concordância, mas ao menos me permitem avançar no trabalho"


Se tivessem surgido mais cedo, como ansiava o homem desde o princípio, as ferramentas de tradução automática bem poderiam ter sido de grande ajuda em momentos cruciais da história. Durante a Batalha de Cajamarca pela conquista do Peru, em 1532, coube a um jovem nativo chamado Felipillo mediar o encontro entre os espanhóis, comandados por Francisco Pizarro, e os incas. Por má-fé ou não do tradutor, o rei Atahualpa foi levado a entender que os espanhóis queriam lhe impingir a condição de vassalo do rei espanhol. A negociação foi um fracasso e precipitou a guerra, ocaso inca. Quatro séculos depois, outro entrevero. Em 26 de julho de 1945, as forças aliadas apresentaram a Declaração de Potsdam, um ultimato que dava a Tóquio duas alternativas: rendição incondicional ou destruição total. Dois dias depois, o primeiro-ministro Suzuki Kantaro disse aos jornais de seu país que a declaração não tinha "nenhum valor", acrescentando à frase seguinte o termo mokusatsu – que pode assumir os significados distintos de "ignorar" ou "silêncio". O jornal The New York Times estampou em sua primeira página: "Japão rejeita ultimato aliado de rendição". Tradutores afirmariam mais tarde que melhor seria dizer que os japoneses "silenciaram". As bombas atômicas caíram sobre Hiroshima e Nagasaki sete e dez dias depois, respectivamente. Há dúvidas sobre o efeito que outras traduções poderiam exercer nos dois episódios. Mas o fantasma da diferença linguística perpassa a história. Agora, com os tradutores automáticos, o homem tem a chance de derrubar, com a ajuda da tecnologia, a barreira que Deus, segundo a tradição bíblica, ergueu com a Torre de Babel.

Nicholas Ostler
O especialista britânico em história das línguas enxerga no tradutor do Google um aprimoramento da globalização, com novas oportunidades para o indivíduo.
E sentencia: o inglês será a última língua franca

"As pessoas se darão ao luxo de falar com outras culturas usando o próprio idioma"


Franz Josef Och
O alemão que chefia o time de tradução do Google, diante da Pedra de Roseta, que no século XIX ajudou a decifrar os hieróglifos egípcios e serve de modelo ao sistema automático do gigante de buscas. O tradutor moderno alia números e palavras, matemática e linguística para converter idiomas

"No futuro, teremos muito mais. A máquina será capaz de quebrar barreiras, levando a informação aonde quer que as pessoas precisem dela"


David Yarowsky
O professor de ciência da computação da Universidade Johns Hopkins aposta no poder de aproximar pessoas da ferramenta de tradução. A cada língua colocada à disposição na internet, surgem chances de aumentar a troca de ideias e diminuir as diferenças culturais

"Eu não sei o que um garoto de Bagdá pensa sobre os Estados Unidos, mas gostaria de saber"


Vinício Fornasari
Aos 52 anos, o empresário da construção civil usa o Google Tradutor a partir de Florianópolis para checar minúcias de contratos firmados com companhias da China, Japão e Turquia, além de prospectar oportunidades pela internet

"A ferramenta tem ajudado muito nas negociações"

A ficção chegou primeiro

A literatura e o cinema inventaram dispositivos – ou geringonças – capazes de simular a comunicação entre línguas muito antes dos tradutores automáticos
Babel fish
Colocado no ouvido, o peixe de O Guia do Mochileiro das Galáxias, dos anos 70, absorve energia mental e libera ondas telepáticas: assim, é claro, o tímpano do anfitrião entende qualquer língua.


Tradutor Universal
O dispositivo da saga Jornada nas Estrelas, que surgiu nos anos 60, foi uma espécie de precursor do modelo do Google: usa cálculos e recorre a um banco de dados para comparar idiomas. Uma diferença: pode ler ondas cerebrais.


Robô C-3PO
O androide medroso e falador de Star Wars, criado por George Lucas nos anos 70, é o tradutor mais culto da ficção: é fluente em 6 milhões de idiomas. E ainda pertence ao grupo de robôs diplomáticos.



Fontes: Blog Contúdo Livre e Revista Veja.

sábado, 1 de maio de 2010

FEI sediará eventos internacionais sobre robótica e inteligência artificial

O Centro Universitário da FEI (Fundação Educacional Inaciana) sediará o Joint Conference, um dos mais importantes encontros da América Latina nas áreas de robótica e inteligência artificial e que acontecerá de 23 a 28 de outubro, no campus São Bernardo (avenida Humberto de Alencar Castelo Branco 3.972, bairro Assunção).

A conferência vai englobar três eventos: Simpósio Brasileiro de Inteligência Artificial (SBIA), Simpósio Brasileiro de Redes Neurais Artificiais (SBRN) e a Jornada de Robótica Inteligente (JRI), que envolve também a Competição Latino-Americana de Robótica e as finais da Olimpíada Brasileira de Robótica.

O Joint Conference reunirá pesquisadores de diversas partes do Brasil e do mundo, estudantes e interessados em robótica e inteligência artificial. A expectativa dos organizadores é de atrair cerca de 500 pessoas. Além das conferências, haverá palestras sobre temas ligados à robótica, inteligência artificial e inovação tecnológica. “Abrigar um evento desse porte é um reconhecimento de que a FEI está inserida cada vez mais na pesquisa e desenvolvimento de ciência e tecnologia”, destaca o professor e coordenador do curso de Ciência da Computação da FEI e do Joint Conference, Flavio Tonidandel.

O SBIA e o SBRN são compostos de apresentação de artigos, já o JRI englobará o ENRI (Encontro de Robótica Inteligente), a CBR (Competição Brasileira de Robótica), a Latin American Robotics Competition (LARC) e o Encontro de Robótica Inteligente, que envolverá também as finais da Olimpíada Brasileira de Robótica.

Esta é a primeira vez que a FEI será sede do evento, que ocorreu pela última vez no Brasil, em 2008, em Salvador. O Joint Conference conta com apoio da Sociedade Brasileira de Computação (SBC), do IEEE Latin American Robotics Council e da RoboCup Federation como forma de incentivar a interação de pesquisadores e estudantes. Toda a programação do encontro internacional se encontra em fase de preparação. Mais informações podem ser obtidas no www.jointconference.fei.edu.br.